Agnaldo
Texto
Agnaldo Manoel dos Santos (Ilha de Itaparica, Bahia, 1926 – Salvador, Bahia, 1962). Escultor. Produz obras em madeira com pluralidade temática, passando pela religiosidade, maternidade, cenas do cotidiano e relações familiares. Suas esculturas se aproximam das artes tradicionais africanas, com figuras antropomórficas de forte expressividade e linhas bem marcadas.
Escultor autodidata, inicia seu contato com esculturas quando trabalha como vigia no ateliê do artista Mario Cravo Júnior (1923-2018), em Salvador. É nessa troca diária que faz suas primeiras experiências esculpindo madeira e é influenciado pelas grandes obras de cunho expressionista de Cravo, bem como pelos seus ex-votos – pinturas, esculturas e objetos que os devotos oferecem às divindades como agradecimento à graça alcançada. Nesse período da arte moderna baiana, Agnaldo dos Santos se forma intelectual e artisticamente na interlocução com outros nomes importantes da cultura brasileira, como a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), o artista Carybé (1911-1997) e o escritor Jorge Amado (1912-2001).
Com variedade temática em sua produção, as carrancas1 constituem uma representação expressiva do artista. Em uma relação comercial e formativa com o escultor, marceneiro e carpinteiro Mestre Guarany (1884-1985), conhecido e respeitado carranqueiro dos barcos da região do Rio São Francisco, Agnaldo produz carrancas com características marcantes e expressões antropomórficas, recebendo títulos como Cabeça de animal [s.d.], Cabeça de tatu [s.d.] e Cabeça de cavalo [s.d.].
A religiosidade se configura como tema das esculturas do artista. Fazem parte dos seus trabalhos tanto as referências aos orixás do Candomblé, quanto as menções aos santos da Igreja Católica, bem como a produção de ex-votos. Embora em sua biografia não exista indícios de uma relação próxima com nenhuma religião, entende-se que o escultor retrata em suas obras o mundo que o cerca em seu cotidiano.
Oxóssi caçador [s.d.] é uma escultura que retrata o orixá Oxóssi, que geralmente é representado empunhando arco e flecha. No entanto, a representação de Agnaldo mostra o orixá como uma figura masculina esguia, carregando uma arma de fogo, com um facão na cintura e chapéu. Nessa escultura, vê-se uma atualização da figura do caçador para os dias atuais e uma liberdade artística.
As figuras de santos também fazem parte dessa produção, como a escultura Nossa Senhora da Conceição [s.d], com a representação de uma mulher, com as mãos unidas ao centro do corpo, em prece. A figura é esculpida envolta por uma superfície arredondada, que se assemelha a um manto, e carrega um crucifixo no pescoço. Em suas obras, observa-se o uso de uma madeira escurecida e polida, conferindo brilho e uniformidade à peça.
Sob influência do fotógrafo e antropólogo franco-brasileiro Pierre Verger (1902-1996), o escultor tem contato com a arte africana, especialmente por meio do registro fotográfico de Verger das cerimônias afro. A partir dessas fotografias, o escultor passa a esculpir máscaras inspiradas nas máscaras Epa, dos povos Yorubá, da Nigéria. As máscaras produzidas por Agnaldo possuem um perfil alongado, com olhos amendoados e nariz triangular em alto relevo e, por vezes, levam elementos no topo da cabeça, como crucifixos.
As relações familiares e de afeto também são temas recorrentes para a produção de suas esculturas. Obras intituladas como Maternidade [ca. 1960], Pai de família [s.d.] e Pai e filha [ca. 1955], são exemplos de esculturas que representam cenas afetivas entre membros da família. Maternidade traz uma mulher sentada, com o corpo alongado, ereto, com uma criança sentada em seu colo e mamando em um dos seios, enquanto segura outra criança com a mão. Os detalhes dessa escultura de quase um metro de altura mostram a preocupação plástica e estética do artista com a precisão das linhas esculpidas.
As obras não têm datas precisas e o artista tem uma produção breve, pois morre jovem, aos 35 anos, porém tem repercussão nacional e internacional ainda em vida. Em 1956, fica em segundo lugar no 6º Salão Baiano de Belas Artes, em Salvador, e, no ano seguinte, tem sua primeira exposição individual na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Ainda em 1957, participa da 4ª Bienal Internacional de São Paulo com a obra Pilando dendê [s.d.] e ganha o Prêmio de Escultura. Sua obra é capa da edição da revista nigeriana Black Orpheus, em 1963, fazendo com que sua produção comece a circular no continente africano.
Postumamente, participa da Brasil + 500: Mostra do Redescobrimento, em 2000, e da exposição coletiva Histórias Afro-Atlânticas, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), em 2018, ambas em São Paulo. Em 2021, recebe a exposição individual Agnaldo Manuel dos Santos: A Conquista da Modernidade, na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo. Parte de suas obras estão preservadas em instituições museológicas, como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Mam Rio), o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (São Paulo) e a Universidade da Pensilvânia, (Estados Unidos), entre outras.
Com o uso de imagens que remetem aos ex-votos, aos cultos religiosos, católicos e do candomblé, e às cenas do cotidiano e representando máscaras e carrancas, as esculturas de Agnaldo Manuel dos Santos revelam sua inserção como artista moderno, preocupado com o uso de formas, linhas e geometrias que destacam sua produção escultórica. O trabalho de escurecer, polir, lustrar e esculpir a madeira a partir de uma formação autônoma e em interação com outros artistas indica a diversidade de interesses do escultor, influenciado pelo mundo que o cerca.
Notas
1. Esculturas com forma humana ou animal, produzidas em madeira e utilizadas, em sua origem, na proa das embarcações que navegam pelo Rio São Francisco.
Exposições 49
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0/0/0 - 0/0/1957
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28/12/1967 - 28/2/1966
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19/11/1985 - 31/1/1984
Fontes de pesquisa 18
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AGNALDO.
In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025.
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