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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Cecília Meireles

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.10.2024
07.11.1901 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
09.11.1964 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Cecília Meireles, s.d.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1901 – Idem, 1964). Poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora, dramaturga. Mesmo sendo considerada uma poeta filiada ao modernismo, seus caminhos estéticos estão mais ligados à evolução pessoal do que a movimentos literários. Entre outros temas, sua obra aborda a solid...

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Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1901 – Idem, 1964). Poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora, dramaturga. Mesmo sendo considerada uma poeta filiada ao modernismo, seus caminhos estéticos estão mais ligados à evolução pessoal do que a movimentos literários. Entre outros temas, sua obra aborda a solidão, a brevidade da vida e a religiosidade. 

Órfã de pai e mãe, é criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides, natural dos Açores, Portugal. Conclui o curso primário, em 1910, na Escola Estácio de Sá, quando recebe das mãos do poeta Olavo Bilac (1865-1918), então inspetor escolar do Distrito Federal, medalha de ouro por ter concluído o curso com “distinção e louvor”. Diplomando-se no curso normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1917, o magistério se torna uma de suas paixões, levando-a a escrever para o público infantil.

Inicia a vida literária participando do grupo tradicionalista e católico que se articula dentro da revista Festa, dirigida por Tasso da Silveira (1895-1968). O grupo, denominado “espiritualista”, alinha-se ao modernismo, sem, contudo, limitar-se aos preceitos do projeto modernista de São Paulo, buscando uma arte mais universalista. É nesse contexto que Meireles estreia na literatura, publicando, aos 18 anos, o livro Espectros (1919), que contém poemas sobre temas históricos, lendários, mitológicos e religiosos, retratados em sonetos de nítida influência simbolista, na musicalidade, na melancolia e na dimensão onírica dos versos. Na opinião de Miguel Sanches Neto (1965), “os primeiros livros de Cecília Meireles apresentam uma nítida rarefação, revelando assim uma maior presença do imaginário simbolista, que vai sendo aos poucos incorporado à sua voz, marcando-lhe a diferença”1. Os livros Nunca mais… e o poema dos poemas (1923) e Baladas para el-rey (1925) também se inserem nessa fase.

Paralelamente à produção literária, atua como jornalista. De 1930 a 1933, mantém, no Diário de Notícias, uma página diária sobre problemas da área da educação, que resulta num livro póstumo de cinco volumes, Crônicas da educação (2001). Nesse período, posiciona-se contra as políticas educacionais adotadas pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e defende pautas libertárias, como a escola mista (com meninos e meninas no mesmo espaço). Assina, em 1932, com os educadores Fernando de Azevedo (1894-1974), Anísio Teixeira (1900-1971), Afrânio Peixoto (1876-1947), entre outros, o “Manifesto dos pioneiros da educação nova”, marco da renovação educacional do país. Em 1934, organiza a primeira biblioteca infantil do Brasil, no Rio de Janeiro.

Sua consagração como poeta se dá com a publicação do livro Viagem, em 1939. Vencedor do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (ABL), é considerado um marco na carreira da escritora, sendo apontado como a obra em que ela encontra sua voz. Nele, a autora renova sua poética, equilibrando tradição e modernidade, o que resulta num estilo próprio e singular na poesia brasileira. Outro livro importante da autora é Mar absoluto e outros poemas, publicado em 1945. Considerado um de seus melhores livros, concilia a vagueza e a imprecisão do sentido com uma capacidade maior de síntese e força narrativa, incorporando ainda o recurso do verso livre.

A obra mais conhecida, no entanto, é o Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953, que utiliza o verso em redondilha maior para construir uma narrativa poética sobre a saga dos conjurados mineiros do século XVIII, alternando entre o tom lírico e o épico. O que singulariza esse livro dentro da sua obra, além de sua perfeição técnica, é a abordagem de um fato da história política nacional, tema pouco comum em sua produção literária. O enredo histórico, porém, é abordado de maneira alegórica, simbólica, transcendendo a sua condição temporal. O Romanceiro da Inconfidência revela afinidades estéticas com os cancioneiros da Idade Média, como destaca Mário Faustino (1930-1962), e é considerado um dos poemas longos mais originais produzidos no modernismo brasileiro, ao lado de obras como Invenção de Orfeu (1952), de Jorge de Lima (1893-1953), e Contemplação de Ouro Preto (1954), de Murilo Mendes (1901-1975).

A vocação lírica de Meireles atinge plena maturidade com o livro Canções (1956), em que volta a empregar a métrica da redondilha, dialogando com a tradição poética portuguesa, inclusive com as cantigas de amor e de amigo. Comentando a respeito em sua História concisa da literatura brasileira, diz Alfredo Bosi (1936-2021) que “Cecília foi escritora atenta à riqueza do léxico e dos ritmos portugueses, tendo sido talvez o poeta moderno que modulou com mais felicidade os metros breves, como se vê nas Canções e no trabalhadíssimo Romanceiro da Inconfidência"2.

Um livro que ocupa um lugar diferenciado no conjunto da obra da autora é Ou isto ou aquilo (1964), que apresenta poemas escritos para crianças, utilizando recursos de linguagem como trocadilhos e paronomásias, buscando atrair o leitor para os aspectos lúdicos da poesia. Um poema que se destaca nesse conjunto é “O mosquito escreve”, construído como um acróstico, em que cada letra da palavra "mosquito" é destacada, em maiúscula, num dos versos, como no trecho: “O mosquito pernilongo / trança as pernas, faz um M, / depois, treme, treme, treme”3.

Cecília Meireles é uma das mais importantes vozes da poesia em língua portuguesa do século XX. A qualidade formal, a diversidade de formas poéticas e a abordagem filosófica de diferentes temas fazem da escritora um dos grandes nomes da literatura.

Notas

1. SANCHES NETO, Miguel. Cecília Meireles e o tempo inteiriço. In: MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. xxiv-xxv.

2. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 513.

3. MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 448.

Obras 5

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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Espetáculos 23

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Exposições 6

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Fontes de pesquisa 9

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996.
  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Casa do Estudante, 1946.
  • BANDEIRA, Manuel. Balada de Santa Maria Egípcia. In: ______. Estrela da vida inteira. 2º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, Instituto Nacional do Livro, 1970.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 513.
  • LAMENGO, Valéria. Cecília Meireles, lendas e fatos. Revista Cult, 7 nov. 2011. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/cecilia-meireles-lendas-fatos/. Acesso em: 1 set. 2023.
  • MEIRELES, Cecília, Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 2v.
  • MEIRELES, Cecília. Cecília Meireles de Bolso. Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Coleção L&PM Pocket). p. 21.
  • MEIRELES, Cecília. Oratório de Santa Maria Egipcíaca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 34.
  • MELLO, Ana Maria Lisboa de. Cecília Meireles: Vida e obra. L&PM Editores. Disponível em: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805135&SecaoID=0&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout autor.asp AutorID=354915. Acesso em: 1 set. 2023.

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