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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Brasília - Dia de Inauguração

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.12.2023
21.04.1960
Brasília - Dia de Inauguração é uma série fotográfica de autoria do fotógrafo húngaro, radicado no Brasil, Thomaz Farkas (1924-2011). As fotos datam de 21 de abril de 1960, dia da transferência da capital federal para o Planalto Central.

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Brasília - Dia de Inauguração é uma série fotográfica de autoria do fotógrafo húngaro, radicado no Brasil, Thomaz Farkas (1924-2011). As fotos datam de 21 de abril de 1960, dia da transferência da capital federal para o Planalto Central.

A relação de Thomaz Farkas com Brasília inicia-se em 1957. Por sugestão de Jorge Wilheim (1928-2014), um dos participantes do concurso para o projeto urbanístico da nova capital, Farkas retrata a construção do Plano Piloto e dos edifícios governamentais. O Plano Piloto é projetado pelo arquiteto Lucio Costa (1902-1998), e os edifícios são concebidos por Oscar Niemeyer (1907-2012).

O interesse do fotógrafo, contudo, não se restringe à monumentalidade das construções oficiais: sua câmera 35 mm dirige-se à condição de vida dos “candangos” - apelido dos trabalhadores que migram para o Distrito Federal, crédulos no projeto desenvolvimentista de nação. Nesse período, Farkas dedica-se ao registro dos canteiros de obras e do Núcleo Bandeirante - conjunto de habitações operárias improvisadas, compostas de madeira e construídas em área sem infraestrutura nem saneamento. A Cidade Livre, outra denominação do Núcleo Bandeirante, é criada a partir da lógica da cidade tradicional: construção não planejada de ruas anônimas e surgimento de comércio popular para atender à demanda da comunidade local. Esse espaço contrasta com a cidade planificada: a Brasília que os candangos constróem não lhes oferece endereço no Plano Piloto.

As fotografias de Thomaz Farkas evidenciam que o projeto da moderna capital reproduz e potencializa desigualdades sociais. Segundo o curador Eder Chiodetto (1965), o fotógrafo faz essa denúncia social de maneira sutil:

Ao jogar ideológica e apaixonadamente com o enquadramento, Farkas pensou a fotografia dentro do cânone da subversão, do não conformismo com os discursos oficiais e negligentes. [...] Thomaz Farkas escolhe celebrar a pulsão da vida que revigora o espaço de convívio em vez de destilar discursos inflamados1.

A série fotográfica do dia da inauguração de Brasília reitera a dimensão humanista de Farkas, registrada nas imagens das pessoas e da construção. As fotos mostram homens e mulheres com trajes simples, cerimoniosos, chegando em carros populares ou em ônibus repletos de gente.

A série capta cenas singulares: sem restrição aparente, populares apropriam-se da espetacularidade formal da arquitetura de Niemeyer e ocupam rampas e lajes do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, os novos símbolos de poder. Como uma miragem circunstancial, a mais inovadora e emblemática arquitetura moderna do período parece à disposição de qualquer brasileiro. Nas imagens de Farkas, há a promessa – não realizada – de desenvolvimento igualitário para aqueles que constróem Brasília. Ao comentar uma das fotos, o crítico de arte Lorenzo Mammì (1957) ressalta:

O enquadramento é acentuadamente diagonal, de maneira que a laje parece nascer de um ponto de fuga perdido num fundo infinito. Os visitantes, em geral gente humilde (candangos), avançam desse fundo para o primeiro plano como se estivessem em marcha. [...] Remete a uma ideia de progresso. [...] Mas, ao republicar a imagem 40 anos mais tarde, Farkas acrescentou um comentário melancólico: “No primeiro dia de Brasília, o povo subiu nos edifícios da Câmara e do Senado. Muita alegria. Nunca mais2.

No mesmo dia de inauguração de Brasília, Thomaz Farkas faz a sequência de fotos do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) em meio à população a saudá-lo. São as únicas imagens da série em que não há registros visuais do novo projeto arquitetônico e urbano. É um retrato da proximidade e da cumplicidade entre o político mineiro e os candangos. Nessa sequência, o fotógrafo dedica-se a captar o gestual e as expressões dos personagens principais, no clímax da aventura coletiva de construção de uma cidade a partir do nada. O curador Sergio Burgi (1958) anota outro aspecto das fotos:

Quando Farkas fotografou o presidente aclamado no Planalto Central, em uma sequência quase cinematográfica, tinha como palanque e primeiro plano o amplo capô de um automóvel que se integra à vastidão da paisagem. Desse modo, o fotógrafo utilizou a imagem do automóvel (a partir de um elemento quase abstrato do mesmo) como referência ao processo de industrialização e modernidade do período capitaneado por Juscelino3.

A análise do conjunto dessas fotos evidencia que Farkas aproxima-se do fotojornalismo, sem abandonar, contudo, o estilo desenvolvido no Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), como o acentuado contraste entre preto e branco4. Nesse sentido, concilia ao rigor formal seu interesse pelo registro histórico.

A série fotográfica Brasília - Dia de Inauguração é publicada, pela primeira vez, na década de 19905. Atualmente, o acervo de Thomaz Farkas pertence à reserva do Instituto Moreira Salles, sob regime de comodato.

Notas:

1. CHIODETTO, Eder (Org.). Thomaz Farkas. São Paulo: Ipsis, 2015. p.11.

2. MAMMÌ, Lorenzo. A construção da sombra. In: ESPADA, Heloisa. As Construções de Brasília. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. p.103.

3. BURGI, Sergio. A Brasília de Thomaz Farkas. In: ESPADA, Heloisa. As Construções de Brasília. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. p.125.

4. CHIODETTO, Eder (Org.). Thomaz Farkas. São Paulo: Ipsis, 2015. p.9.

5. ESPADA, Heloisa. Cidade-bandeira. In: ESPADA, Heloisa. As Construções de Brasília. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. p.16.

Fontes de pesquisa 6

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  • CHIODETTO, Eder (Org.). Thomaz Farkas. São Paulo: Ipsis, 2015.
  • COSTA, Helouise; SILVA, Renato Rodrigues da. A fotografia moderna no Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • ESPADA, Heloisa. As Construções de Brasília. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010.
  • FARKAS, Thomaz. Thomaz Farkas, fotógrafo. São Paulo: DBA Melhoramentos, 1997.
  • WESELY, Michael; KIM, Lina. Arquivo Brasília. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.
  • XAVIER, Alberto; KATINSKY, Julio (Org.). Brasília: antologia crítica. São Paulo: Cosac & Naify, 2012.

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