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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.09.2023
1971
O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil (1971) é dirigido por Antônio Calmon (1945), produzido pela Trópico Cinematográfica e distribuído pela Difilm. Trata-se do primeiro longa-metragem do cineasta, o mais experimental em uma obra caracterizada pela pluralidade de gêneros. Contextualiza-se num momento de embate entre a tentativa de diálogo...

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Histórico

O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil (1971) é dirigido por Antônio Calmon (1945), produzido pela Trópico Cinematográfica e distribuído pela Difilm. Trata-se do primeiro longa-metragem do cineasta, o mais experimental em uma obra caracterizada pela pluralidade de gêneros. Contextualiza-se num momento de embate entre a tentativa de diálogo com o público, feita por cineastas relacionados ao Cinema Novo, e a radicalização estética promovida pelo Cinema Marginal. Precede em poucos meses a acirrada polêmica entre Ivan Cardoso e Antônio Calmon, a respeito da possibilidade de realização de filmes experimentais no país. Embate no qual o diretor de O Capitão Bandeira, defende a posição cinemanovista, contra o “undigrudi”, colocando-se a favor de um nacionalismo agressivo. Embora Calmon opte pela vertente industrial, seu primeiro filme apresenta fortes traços experimentais.

O filme Antonio Calmon consegue conciliar a aproximação em relação ao público e alguns dos traços típicos do Cinema Marginal. A densidade psicológica do protagonista permite que os espectadores se identifiquem com ele. Em continuidade ao impulso pró-comunicação e o diálogo com gêneros populares, O Capitão Bandeira explora a paródia ao mundo das histórias em quadrinhos. Isso corre, entretanto, a partir de um estilo envolvendo a colagem, a descontinuidade e a explicitação da equipe de filmagem nas imagens do filme.

A atração pelo gênero policial e pelo mundo dos gibis permite aproximar O Capitão Bandeira de características de filmes marginais. Nele, é possível entrever o pessimismo frente ao contexto de repressão militar vivenciado em 1971: momentos de tiros a esmo, gargalhadas sarcásticas, um certo teor de deboche, bem como a presença do kitsh e do cafona.

Neste primeiro longa-metragem, é possível encontrar características posteriores da obra de Calmon. Entre elas está a focalização de um herói sem saída, paranóico, atormentado pelas exigências do mundo ao seu redor.

O Capitão Bandeira apresenta a trajetória de Cláudio Bandeira, um empresário bem sucedido, porém de personalidade esquizofrênica. Faz parte de sua dupla personalidade a transformação em Capitão Bandeira, um herói perseguido pelo invisível Dr. Moura, que lhe cobra o cumprimento de um pacto. Tais cobranças são feitas, no início do filme, através da ação de uma atraente loira de vestido transparente, que o seduz. O ambíguo fluxo de consciência deste personagem esquizofrênico compõe a força estruturante do filme. O principal problema é a veracidade da existência do Dr. Moura Brasil e a possibilidade de fuga, frente ao destino imposto pelo pacto entre eles firmado.  

A trajetória de tal personagem é mostrada a partir de procedimentos estilísticos inspirados no universo das histórias em quadrinhos e desenhos animados. Entre os mais freqüentes pode-se citar: o gosto pelo enquadramento dos personagens em primeiro plano, majoritariamente a partir de planos fixos; uma gestualidade caricata, que em momentos de briga aproxima-se das peripécias; o gosto pelo gênero policial; panorâmicas de carros em movimento.

Em alguns momentos, tais procedimentos contribuem para a definição do estado de esquizofrenia do personagem principal, acompanhando sua loucura. Isso é explicitado, por exemplo, numa longa seqüência onde Capitão Bandeira invade um casarão, atraído pela sedutora loira interpretada por Norma Bengell. A ação se apresenta como um grande devaneio, no qual o protagonista passa desapercebido pelo chofer-segurança armado, faz sexo com a moça e, depois, presencia a morte dos dois. Seu objetivo não é apenas possuí-la, mas também indagar-lhe a respeito da identidade e do pacto feito com Dr. Moura Brasil. O perigo da volta do chofer-segurança é eminente. Depois de um ato sexual consumido em diferentes espaços, incluindo ambientes internos e um amplo jardim, a moça lhe revela a identidade de Dr. Moura Brasil. Por meio de um gesto irônico, retira o pano que cobre um retrato, apresentando a face de um ditador parecido com Hitler. Em frente a tal quadro, ao som de gargalhadas, ocorre a morte da moça e do chofer-segurança, que trocam tiros entre si. No final deste grande delírio, tudo se dá de forma lenta, enfatizando os personagens em primeiro plano, o sangue escorrendo por um dos rostos e os corpos caindo ao chão. As rupturas, sugeridas pelos tiros e pelos deslocamentos entre plano e contra-plano das faces, sugerem um olhar que percorre a tira de uma história em quadrinhos.     

Depois de sua exibição no Festival de Cannes de 1971, o filme estréia no Rio de Janeiro em dez salas de exibição. No âmbito da crítica jornalística, O Capitão Bandeira chega a ser considerado como uma “nova linha comercial, na realidade um cinema artístico porém que busca uma forma de produção onde os ingredientes de maior comunicação com o grande público estejam presentes"1. Já Aranha de Moura, enfatiza os aspectos experimentais: “Exemplar típico do cinema underground, escola onde existe explosão de estilos, formas e diretrizes cinematográficas. É a informalidade total (temática, técnica, estrutural), montagem abrupta, narrativa descontínua. Um cinema pessoal e de autor"2.

Notas

1 MARCONI, Celso. Mini-opinião. Cinema de Arte do Recife, out. 1971.

2 MOURA, Aranha de. Apud. A. A. Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil. Cinema de Arte do Recife, out. 1971.

Fontes de pesquisa 5

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  • A. A. Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil. Cinema de Arte do Recife, out. 1971.
  • AQUINO, Marçal. O cineasta singular, Obra Plural: os Heróis sem saída de Antônio Calmon. In: CCBB. Catálogo da mostra Antônio Calmon - gênero, contestação e autoria. São Paulo, 2003. p.11-12
  • MARCONI, Celso. Mini-opinião. Cinema de Arte do Recife, out. 1971.
  • RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968-1973): a representação em seu limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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